Do uolesportes
A Fifa só vai aprender a operar o Itaquerão na Copa do Mundo. A constatação foi feita por um membro do COL (Comitê Organizador Local) no último domingo, depois de Corinthians e Botafogo terem feito a segunda partida oficial do estádio de São Paulo. Separados por duas semanas, os dois eventos-teste mostraram evolução em vários aspectos no funcionamento do aparato. Mas também mostraram que, a dez dias de Brasil x Croácia, vários aspectos ainda precisam ser alinhados.
"O primeiro teste foi bom. O segundo teste foi melhor. No terceiro teste... Na Copa tudo vai melhorar, como tráfego, metrô e polícia. Quanto mais prática, melhor. Vamos ficando mais familiarizados. Até a semifinal da Copa estaremos fazendo o jogo de olhos fechados", disse Tiago Paes, gerente de operações do COL.
O Itaquerão foi o último a ser inaugurado entre os 12 que receberão jogos da Copa de 2014. O aparato foi aberto no dia 18 de maio, quando o Corinthians recebeu o Figueirense, e esse podia ter sido o único evento-teste antes do Mundial.
Após pedido da Fifa, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) inverteu o mando de campo de Corinthians x Botafogo, que originalmente estava marcado para o Rio de Janeiro, a fim de viabilizar uma segunda partida na nova arena.
A ideia também era testar o estádio com um contingente maior de torcedores, com uso das arquibancadas móveis situadas atrás dos gols. No entanto, o público da segunda partida superou em menos de mil o número de pagantes da inauguração.
A arquibancada provisória do setor norte será testada apenas na abertura da Copa. "Não há risco. O setor só não foi avaliado pelo Corpo de Bombeiros por conta do teste de resistência. Quarta-feira será feito o teste final para dar o laudo dos bombeiros", disse Raquel Verdenacci, coordenadora da secretaria-executiva do Comitê Paulista para a Copa de 2014.
Outras estruturas vão demorar ainda mais para serem liberadas. É o caso de aparatos provisórios para patrocinadores e receptivo de VIPs. No domingo, havia funcionários trabalhando durante o jogo.
"Testamos um pouco da área VIP. Operamos poucos camarotes porque muitos estão sendo montados. Na parte de transporte, pouca gente foi barrada. A operação está sendo montada", explicou Tiago Paes.
A evolução na operação incluiu até aspectos básicos – os horários de manutenção, a instalação de um centro de mídia e o uso de detectores de metais na entrada, por exemplo.
Veja abaixo uma análise sobre vários aspectos do Itaquerão e uma comparação entre as operações dos dois jogos no estádio:
Transporte público
Uma mudança sutil no ambiente foi a maior diferença na operação do Expresso da Copa, linha da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) que faz sem paradas o trajeto entre as estações Luz e Corinthians-Itaquera. No primeiro e no segundo jogo no Itaquerão, torcedores do Corinthians fizeram do preto e branco a combinação dominante no interior das composições. Na estreia, porém, havia mais festa, com direito a instrumentos musicais e gritos entoados nas arquibancadas.
Nos dois primeiros jogos do Itaquerão, segundo a prefeitura de São Paulo, metrô e trens da CPTM foram os meios mais usados para acesso ao estádio. "Conseguimos mostrar eficiência. O transporte público é o melhor meio de se chegar até aqui, e essa cultura é importante", disse Raquel Verdenacci, coordenadora do Comitê Paulista para a Copa de 2014.
A operação entre o transporte público e o estádio também seguiu o mesmo padrão nos dois jogos. Torcedores que desceram na estação Corinthians-Itaquera atravessaram pela Radial Leste na ida, e uma plataforma sobre a via foi usada apenas na saída.
A medida deve-se a um temor sobre o acúmulo de público na passarela. Como a chegada do público demanda checagem de ingressos e leva mais tempo, a Radial Leste foi escolhida por ser mais ampla. Caso contrário, as pessoas poderiam ficar aglutinadas em um corredor e gerar repercussão no interior da estação.
Na saída, houve fluxo intenso na passarela. Alguns torcedores chegaram a fazer relatos sobre demora de até 50 minutos para percorrer o trajeto do estádio até a catraca do metrô, mas a reportagem fez o trajeto sem qualquer parada.
Trânsito
A operação de trânsito também teve apenas pequenas alterações entre os dois jogos realizados no Itaquerão. Ainda assim, o índice de congestionamento, segundo a CET, caiu para cerca de um quarto do que foi registrado na inauguração.
"Parei um pouco longe e precisei andar um pouco, mas não tive problemas para chegar de carro", relatou Diego Lopes, torcedor do Corinthians.
Estacionamento
A sinalização de estacionamentos foi um aspecto que incomodou autoridades no primeiro evento-teste do Itaquerão. No duelo entre Corinthians e Botafogo, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) já havia instalado mais placas e indicações.
"Há uma estrutura singela", definiu um membro do Comitê Paulista para a Copa de 2014. Até a Copa, a expectativa do órgão é que a Fifa ajude nessa comunicação visual e instale equipamentos como pórticos e placas mais visíveis.
Ambulantes
A maior mudança entre o primeiro e o segundo jogo do Itaquerão é que Corinthians x Figueirense foi um evento-teste da Fifa apenas no interior do equipamento. Na partida contra o Botafogo, a entidade fez uma prova também da estrutura que será usada nas imediações do aparato.
O primeiro reflexo disso foi o controle de ambulantes. No dia 18 de maio, o comércio informal funcionou normalmente nas imediações do estádio – houve venda de camisas piratas no terreno do Itaquerão, a poucos metros da porta.
No domingo de Corinthians x Botafogo, o trabalho de ambulantes foi muito mais controlado. A Polícia Militar fez uma primeira triagem antes de 13h e pediu que os comerciantes se retirassem, mas a maioria apenas se afastou e se posicionou nas imediações do metrô.
Por volta de 13h30, agentes da Prefeitura de São Paulo e da Guarda Civil Metropolitana fizeram nova abordagem. Ambulantes foram retirados, e os reincidentes tiveram produtos apreendidos – foram cerca de 20 casos.
Os preços praticados pelos ambulantes eram os mesmos nos dois jogos: uma camisa pirata era vendida por R$ 40, e uma bandeira custava R$ 30. Três cervejas eram comercializadas por R$ 10.
Depois de os ambulantes terem sido "varridos", apenas os comerciantes cadastrados pela Fifa ficaram no entorno do estádio. E com preços tabelados pela entidade – uma cerveja, por exemplo, custava R$ 5.
Cambistas
Cambistas trabalharam nas imediações do Itaquerão nos dois jogos que o estádio recebeu até agora. Em ambos, a bilheteria oficial não funcionou no dia do evento.
Na partida Corinthians x Botafogo, por exemplo, cambistas ofereciam ingressos de R$ 250 por R$ 500. Eles ainda se ofereciam para acompanhar o comprador até a primeira triagem de acesso para garantir que o bilhete não era falsificado.
Controle de acesso
"Eu cheguei bem cedo e achei que conseguiria entrar mais facilmente no estádio. Fiquei 50 minutos preso no primeiro controle, sem saber por que isso aconteceu. Foi assim com todo mundo que chegou cedo", contou Raul Batista, torcedor do Corinthians, sobre o jogo contra o Botafogo.
A primeira triagem, colocada bem antes do portão do estádio, foi motivo de reclamação dos corintianos no segundo jogo do Itaquerão. Esse processo havia sido mais célere na inauguração do estádio.
Nos portões de acesso ao terreno do estádio, o jogo entre Corinthians e Botafogo teve outra mudança na operação: detector de metais e revista com o padrão que será usado na Copa do Mundo. Isso gerou demora e longas filas, sobretudo nos minutos que antecederam o início da partida.
Até 30 minutos do primeiro tempo havia torcedores do Corinthians tentando passar pela catraca. E assim como havia acontecido no jogo inaugural do estádio, pessoas sem ingresso circularam no terreno do estádio. Dois deles até conseguiram ver o jogo.
O COL (Comitê Organizador Local) disse que haverá catracas diferentes para a Copa do Mundo e que isso dificultará a entrada de torcedores sem ingresso.
Torcida visitante
Um dos gargalos mais evidentes no jogo inaugural do Itaquerão, o acesso da torcida visitante voltou a causar problemas na partida entre Corinthians e Botafogo. Membros de organizadas da equipe carioca foram barrados e impedidos de ver o duelo.
Em Corinthians x Figueirense, torcedores da equipe catarinense disseram ter sido orientados a buscar o portão 3 do estádio para comprar ingresso. A fila logo foi tomada por corintianos que estavam sem entrada, mas a bilheteria nem chegou a ser aberta.
No segundo jogo do estádio, torcedores das organizadas Baixada Fogo e Torcida Jovem disseram ter sido orientados a retirar ingressos de visitantes na Vila Olímpia. Depois, segundo eles, a Polícia Militar avisou que não poderia escoltar o grupo até o Itaquerão.
"Eles nos falaram para retirar os ingressos aqui no estádio, mas os ingressos nunca vieram para cá", disse Odilon de Souza Costa, presidente da Baixada Fogo. Os organizados tentaram contato com a diretoria do Botafogo, mas não conseguiram solucionar o problema até o fim do primeiro tempo.
Segurança
A Polícia Militar não registrou nenhuma ocorrência nos dois jogos realizados no Itaquerão. No primeiro, o Batalhão de Choque ainda precisou retirar milhares de torcedores que estavam no terreno do estádio e buscavam frestas para ver a partida.
Nas arquibancadas do setor norte, onde estavam organizadas, não havia seguranças privados no espaço onde ficam os assentos. Só em cima e embaixo. Em todas os outras áreas, havia os seguranças misturados aos torcedores para vigiá-los, assim como é feito na Copa.
Na parte das organizadas também havia policiais militares. Segundo o padrão da Fifa, policiais não devem trabalhar dentro do estádio.
Limpeza e banheiros
"Hoje está bem mais tranquilo. Tem mais gente, e a gente também entendeu melhor como as coisas funcionam", disse um dos funcionários da área de imprensa do Itaquerão. Ainda assim, como qualquer obra em andamento, o estádio tem muito pó.
"Os vasos estavam sujos no banheiro que atende as arquibancadas temporárias", reclamou a torcedora Sueli Teixeira. Banheiros visitados pela reportagem estavam mais limpos na inauguração do que no segundo jogo.
Outros torcedores ouvidos pelo UOL Esporte elogiaram as condições dos sanitários e a limpeza do estádio.
Cobertura
O primeiro jogo do Itaquerão teve uma diferença fundamental em comparação com o segundo: a chuva. Isso expôs mais a cobertura do estádio, e goteiras ficaram evidentes em diferentes setores, sobretudo no fim do jogo entre Corinthians e Figueirense.
Em Corinthians x Botafogo também houve goteiras, mas por um motivo diferente. Na arquibancada provisória do setor sul, um vazamento provocou poças e obrigou os torcedores a desviarem o caminho quando circulavam no terreno do estádio.
Alimentação
O segundo jogo do Itaquerão teve mais lanchonetes abertas. Ainda assim, porém, houve filas nos horários com maior concentração de público – no intervalo da partida, principalmente.
"Eu peguei fila, mas pelo menos tinha bastante gente para dar informação", disse o comerciante Guilherme Leitão. O estudante Roberto Eduardo Barroso também reclamou de filas nas lanchonetes.
Outros torcedores tiveram experiências mais inusitadas. Alguns relataram ter comprado produtos por valores diferentes do que eles custavam realmente. "Peguei um valor de fichas por causa de um refrigerante, mas o refrigerante era R$ 1 mais caro do que a pessoa do caixa tinha me informado. Precisei voltar para a fila", contou Bruno Aguiar Rodrigues.
"Eu comprei um lanche de pernil no caixa e entreguei as fichas no balcão. Só aí o cara do balcão avisou que aquela lanchonete não servia esse lanche", completou Flavio Seno.
Entre os que conseguiram comprar, nem todo mundo ficou satisfeito. "Comi um cachorro-quente bem seco. Não vale o preço que estão pedindo", ponderou Guilherme Leitão, que desembolsou R$ 10 pelo lanche.
Iluminação
Outro item que incomodou autoridades no primeiro jogo do Itaquerão, a iluminação no entorno do estádio foi plenamente ajustada até a segunda partida. Após Corinthians x Figueirense, a Fifa chegou a cogitar instalar um reforço temporário para reduzir o breu no terreno da arena.
A ideia era fazer um reforço com estruturas provisórias no chão, mas o jogo entre Corinthians e Botafogo mostrou que isso não será necessário. Um incremento no número de postes foi suficiente.
Lugares marcados
No primeiro jogo, segundo a "Folha de S.Paulo", houve até um torcedor com um ingresso que indicava uma fileira inexistente no Itaquerão. Também foram muitos os relatos de pessoas que tiveram dificuldade para ver a partida no lugar que tinham comprado.
E para solucionar isso, nada melhor do que diminuir a precisão. Orientadores de público indicaram apenas setores para quem foi ver Corinthians x Botafogo, e o número de assento só foi respeitado quando torcedores tomaram iniciativa e exigiram ficar com o lugar que haviam comprado.
"Falaram que os assentos marcados não estavam valendo", disse o administrador Fernando Covac. "Quando eu cheguei, todo mundo estava fora do lugar", completou o professor Joaquim Henrique Fernandes Júnior.